Buscando por trabalho digno para sobreviver

Por sua vez, fazer bem um trabalho exige disciplina e
autocontrole, ou seja, exige o contínuo controle do corpo e seus
desejos, fadigas, inclinações, etc. Ou seja, é necessário se criar um
habitus, uma economia emocional específica dirigida a um fim.
Assim, para o trabalhador útil, é necessário também a criação de
uma racionalidade prospectiva da tabela INSS 2019 pagamento, em que a renúncia ao presente é o
que garante a recompensa futura. Cria-se com isso, literalmente,
um novo ser humano, de fio a pavio, presidido pela noção de
calculabilidade e racionalidade instrumental, em que o controle do
corpo adquire o sentido de virtude máxima. O trabalho útil, que
contribui de algum modo ao bem comum, passa a ser a fonte maior
tanto de autoestima individual como de reconhecimento social.

É isso que explica sua substância de fonte moral. Quem não exerce
trabalho útil está condenado, a partir de então, não só à baixa
autoestima, como também ao desprezo geral. Simples assim. Não
temos, portanto, enquanto indivíduos, nenhum controle sobre os
mecanismos de atribuição de respeito, consideração e prestígio
social. Assim como não temos sobre os mecanismos que produzem o desprezo e a indignidade. Por conta disso, Taylor chama de
princípio da dignidade a fonte moral que se articula a partir da
noção do produtor útil.

A outra fonte de moralidade objetiva que se impõe a todos
nós, quer tenhamos, quer não consciência de sua existência, é o
princípio da sensibilidade. Criado historicamente depois do
princípio da dignidade, em parte como reação ao mundo
instrumental e frio do trabalho repetitivo, esse princípio deve muito
às elites artísticas e intelectuais desde a segunda metade do século
XVIII. O valor moral aqui, ou seja, a virtude que se defende, é a
definição do ser humano não como instrumento de produção para o
bem comum, como no princípio da dignidade com a tabela atualizada INSS, mas como um fim
em si mesmo, como um ser cuja maior virtude seria se descobrir e
se criar como um ente expressivo. O expressivismo implica
perceber e conferir valor precisamente aos sentimentos e às
emoções que o princípio da dignidade queria silenciar.

A virtude e bem passam a ser a possibilidade de conhecimento interior, dos
sentimentos e das emoções que nos habitam e conferem nossa
singularidade. Um ser humano completo é aquele que percebe e
expressa sua singularidade emocional. Historicamente, são as
revoluções expressivas da contracultura dos anos 1960 que logram
massificar uma visão de mundo antes restrita a elites intelectuais e
artísticas. A contracultura, que tomou de assalto a juventude
estudantil em todo o mundo nos anos 1960, conseguiu tornar
valores que guiam e influenciam a vida concreta de pessoas
comuns o que antes era restrito às esferas de intelectuais e poetas
desde o século XVIII. Precisamente o fato de que o que confere valor à vida não é mensurável em dinheiro.

O consumo de vinhos caros e sofisticados e de roupas bem
cortadas passa a significar não apenas um bolso mais recheado, mas
também, e principalmente, uma superioridade inata que merece,
portanto, os privilégios que efetivamente desfruta. Os casamentos e
as amizades que ajudam na reprodução infinita dos privilégios de
classe no tempo serão construídos, precisamente, pelas afinidades
sentidas afetivamente pelos indivíduos de uma mesma classe como
pura expressão de uma humanidade superior. Como essa hierarquia
moral é universal na sociedade moderna, as classes populares são condenadas à reatividade, por exemplo, expressa na ética.

Educação infantil e problemas culturais da sociedade

Mais uma vez Bourdieu pode nos ajudar a esclarecer esse
ponto. O que Bourdieu chama de “capital social” pretende dar
conta precisamente do mesmo problema. O acesso ao capital social
de relações pessoais em Bourdieu, no entanto, ainda que seja
decisivo para as chances de sucesso individual em qualquer
contexto, é percebido como secundário em relação aos capitais
impessoais, econômico e cultural. Em outras palavras, o acesso a
relações pessoais privilegiadas só é possível a quem já disponha de
capital cultural e econômico (ou alguém conhece alguém com
acesso privilegiado a relações pessoais vantajosas sem capital
econômico ou cultural?). Omitir a ação primordial desses capitais
impessoais, como fazem Luhmann, DaMatta e a imensa maioria
dos teóricos nesse tema, equivale a omitir a luta de poder e de
classes envolvida na apropriação diferencial de capital econômico e
cultural da nossa educação com atividades pedagogicas para crianças, O que “aparece” são apenas pessoas positiva ou
negativamente privilegiadas pelo acesso a relações pessoais
vantajosas. Pior ainda. Constrói-se uma percepção de sociedades
dinâmicas e complexas – ainda que desiguais e injustas – como a
brasileira, que passa a ser percebida como uma sociedade
tradicional e pré-moderna, cuja hierarquia social seria construída
pelo acesso diferencial a relações pessoais e familiares.
Essas escolhas teóricas não são apenas percepções parciais da
realidade sem vinculação com a realidade política. Ao contrário.

E na demonstração disso, a realidade brasileira pode ser muito
informativa. A concentração da atenção nos processos de
construção de redes de relacionamento para auferir vantagens
permanentes, supostamente existentes apenas em sociedades como
a brasileira – quando o capitalismo financeiro expõe a corrupção
como traço essencial do mercado capitalista em todo lugar –, cria a
ilusão de que não existe luta de classes. A opacidade do processo
social de apropriação diferencial dos capitais impessoais que irá
decidir, a partir do pertencimento de classe, o acesso privilegiado a
todos os bens e recursos escassos é reforçada pela opacidade
teórica que o torna literalmente invisível e não tematizável. Pior
ainda. Constrói-se a ilusão de que esse tipo de aporte teórico
permite a crítica de práticas moralmente reprováveis (a corrupção
seletiva sempre do Estado e sempre das esquerdas) e que aparece,
portanto, ao leitor, com o “charminho” de uma leitura crítica da
realidade, quando é precisamente seu oposto.
Criam-se, com isso, falsos problemas e falsas prioridades,
como cruzadas moralistas contra a corrupção, que passam a ocupar
o lugar da atenção às questões básicas de distribuição desigual em
todas as dimensões. A realidade social não é visível nem
compreensível na educação com desenhos educativos para imprimir Pode-se ver a pobreza e a miséria de
muitos e desconhecer as causas que produzem esse estado. No
Brasil, por exemplo, o brasileiro médio percebe as mazelas sociais
brasileiras como produto da corrupção sistêmica, assim como
luz antunes e semelhantes as perceberam.

É precisamente nesse ponto que a obra de Pierre Bourdieu
pode, talvez, desempenhar um papel ainda maior do que tem tido
hoje em dia.

Sua teoria dos capitais pode ser a base de uma nova
compreensão do capitalismo global e de seus efeitos díspares em cada contexto peculiar. Ela pode fornecer o fundamento teórico
para uma verdadeira teoria crítica da modernidade e da
modernização em que a luta de classes – internacionalmente
percebida – pelo acesso a bens e recursos escassos tenha a primazia
da análise. Julgo que o tema marxista da ideologia espontânea do
capitalismo possa, desse modo, ser reconstruído de modo mais
crítico e teoricamente mais refinado do que foi o caso até agora. No
entanto, penso também que existem unilateralidades e falhas
importantes no esquema soio culural que devem ser superadas
para que possa ser aproveitado em toda a sua riqueza. O ponto que
acho digno de crítica em Bourdieu é o que gostaria de chamar de contextualismo moral.

Cultura sócio econômica e a visão da sociedade

Qual é, então, o núcleo principal dessa novidade?
Ora, como em qualquer revolução na dimensão científica, ela se dá
pela combinação nova e original de conhecimento que já existia.
Minha estratégia foi combinar as principais contribuições de dois
autores seminais da sociologia e com muitos impostos como IPVA 2019 valor.
De Bourdieu eu utilizei as noções correlatas de capital e de
habitus. Bourdieu compreende que o capital econômico é apenas
um dos capitais que pré-decidem a luta dos indivíduos (cujo ponto
de partida, por sua vez, é definido pela posição de classe de cada
um), a luta de todos contra todos pelos recursos materiais e ideais
escassos.

O capital cultural, por exemplo, que pode ser definido
como “conhecimento útil”, é tão importante para a reprodução do
capitalismo como o capital econômico. Não só o próprio capital
econômico depende do conhecimento como fator de produção e
inovação tecnológica para se valorizar, como também não existe
função, seja no mercado, seja no Estado, que possa ser exercida
sem conhecimento técnico incorporado pelo trabalhador. Bourdieu
transforma a sua “teoria dos capitais” no elemento mais abstrato de
sua análise das sociedades do capitalismo tardio. Ele percebe os
capitais econômico e cultural como os elementos estruturantes de
toda a hierarquia social moderna.


É fundamental perceber com toda
a clareza que isso vale tanto para países como França e Alemanha
quanto para países como México, Brasil ou África do Sul. Com isso
quero dizer que toda a luta social por recursos como IPVA 2019 pagamento central para a compreensão da dinâmica profunda de todos os tipos
de sociedade – em qualquer um dos países mencionados
anteriormente é decidida pelo acesso diferencial a esses capitais
impessoais. Esse aspecto é decisivo, porque permite a compreensão
da luta diária de indivíduos e grupos sociais por todos os interesses
materiais e ideais em jogo na vida social. Se a ciência deve, antes
de tudo, separar o principal do secundário, não existe aspecto mais
importante do que o estudo daquilo que decide sobre as chances de
vida de todos nós, em todas as dimensões da vida social ou em
todos os campos sociais, como prefere Bourdieu. Qualquer outro
aspecto é, em relação a esse tema, secundário.

Esse esclarecimento é fundamental para a minha tese: se a
articulação entre os capitais impessoais, econômico e cultural é o
ponto de partida para a compreensão da dinâmica social moderna
como um todo – e muito especialmente da hierarquia social que
decide sobre quem é superior e quem é inferior nesse tipo de
sociedade –, então é justo afirmar que sociedades como México,
Brasil ou África do Sul são sociedades do mesmo tipo que Estados
Unidos, França ou Alemanha. Não há qualquer diferença essencial
acerca do modo como se estruturam as classes sociais em luta, por
exemplo, no Brasil ou na Alemanha. É o acesso ao capital cultural,
sob a forma de capital escolar e herança familiar, que garante a
formação da moderna classe média brasileira como uma classe do
trabalho intelectual, por oposição, por exemplo, ao trabalho manual
das classes sem acesso significativo ao mesmo tipo de capital. É a
mesma diferença que garante a separação – e o acesso a todos os
privilégios materiais e ideais envolvidos nessa disputa – entre a
classe média alemã e a classe trabalhadora alemã ou composta por imigrantes.